estou triste.
tanto tempo que não venho escrever aqui.
ameixas;
é tão bonitinho saber que agora você tem vida própria.
pode não ser muito significativo para humanidade, mas tá aí. vivinho.
saudade. saudade. saudade.
da época em que eu tinha pique para acordar às 5h30′. minha vó me chamava e num pulo eu já estava de pé.
saudade de todas as comidinhas de vó. do pão. da empada. do bolo de milho, de cenoura. dos bolos todos. torta de limão. união espiral. bolinho de nó. da coxinha única.
saliva. saliva. saliva.
…
pergunto-me se superei a morte da minha vó.
estou bem melhor. mas ainda longe de alguma superação.
o jeito foi parar de pensar nisto.
tentar esquecer.
pois não existem explicações, logo não há nada a se entender.
é… é…, talvez seja “só” saudade de você, Ilianil.
…
tem uma entrevista que o Drauzio Varella deu para a revista BRAVO! que eu gosto bastante.
aqui vai um trecho:
“BRAVO!: Em O Médico Doente, você escreve que “morrer é fácil”. A reflexão causa espanto principalmente por aparecer num dos trechos mais dramáticos da narrativa, quando você está muito fraco e recebe a notícia de que precisa ir para a UTI. A morte batia à porta, e você a classificava de fácil… Estranho, não?
Realmente, naquela ocasião tive a certeza de que morreria em pouco tempo. Mais 24 ou 48 horas e pronto… Os exames indicavam que meu fígado caminhava para o colapso. Havia perda de proteína pelos rins, os pulmões trabalhavam com dificuldade, o coração acusava uma arritmia. Era o que chamamos de “falência de múltiplos órgãos”. Talvez outros médicos, no meu lugar, conseguissem deixar de fazer uma análise técnica da situação. Eu não conseguia — dimensionava exatamente a gravidade do quadro. Ainda assim, a partir de um determinado momento, me resignei. Como sou oncologista desde 1972, assisti à morte de várias pessoas. E notei que, quando a doença aperta o cerco devagar, acaba preparando a vítima para o fim. À medida que avança, enfraquece o paciente e tira-lhe qualquer possibilidade de reação. Ele abdica de lutar e deseja apenas ficar quieto. Não reivindica nada nem se desespera. Por incrível que pareça, morrer vai se tornando fácil. Foi justamente o que ocorreu comigo. Pude comprovar na carne que a perspectiva da morte nos angustia e apavora bem mais do que a iminência dela.
Então você não se surpreendeu com o próprio comportamento?
Pelo contrário: me surpreendi muito. Uma coisa é você observar os pacientes. Outra é você estar ali, na cama, agindo como eles. Não imaginei que iria me entregar daquele modo. Pensei que nunca abandonaria a ânsia de viver, que brigaria sem tréguas se caísse doente. Eu, desistir? Não, de forma nenhuma! Sou um esportista, um sujeito ativo, que corre de lá para cá! Meus pacientes, sim — via-os jogar a toalha. Mas eu?!? Caso me perguntassem no hospital: “Você quer viver?”. É claro que responderia: “Quero!”. Teoricamente, queria mesmo. Só que, em termos concretos, imperava uma espécie de rendição.
E o afeto? No livro, você conta que se desligou afetivamente de sua irmã, de sua mulher, de suas duas filhas e de sua neta quando a doença recrudesceu.
Pois é… Pessoas queridíssimas que, de repente, perderam o significado afetivo para mim. Minha mulher, por exemplo [a atriz Regina Braga]. Somos casados há 26 anos! E tenho paixão pelas minhas filhas, com quem procuro falar diariamente. Entretanto, no ápice da crise, os laços emocionais que me uniam a elas se desfizeram. Sabe quando você esbarra em um amigo que não encontra desde a infância? Você o reconhece, percebe que não se trata de um estranho. Após cinco minutos de conversa, porém, você se conscientiza de que já não habitam o mesmo mundo. Aquilo que os ligava desapareceu. Foi o que se passou no hospital em relação às figuras mais importantes de minha vida. Levei um susto.
Assustou-se na hora ou só depois, relembrando o episódio?
Não, na hora. Testemunhava a minha apatia e me intrigava: “O que está acontecendo aqui?”. De novo, imaginava que apenas os outros pudessem manifestar algo parecido. Tive pacientes que se distanciaram dos familiares às vésperas da morte e, de certa maneira, os responsabilizei pelo alheamento. Julguei que reagiam assim porque, ao longo dos anos, construíram elos afetivos um tanto frios e tênues, muito diferentes dos meus, tão repletos de intimidade e amor. Aquela temporada no hospital mostrou que me enganara.”
entrevista na íntegra.
…
o tempo vai passando e só ficam lembranças. de tudo.
decamerão.
lembro de quando grifava letras.
na época era tão fofo e necessário.
hoje é só uma memória bobinha.